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A Fé do
Islã nos questiona
Por
Leonardo Boff
Muitas são
as leturas que se estão fazendo acerca das reações
muçulmanas contra as charges da figura de Maomé. Das que li,
ao meu ver, nenhuma delas apontou o cerne da questão; quem
mais se acercou foi Mauro Santayana aqui no JB
. Precisamos ir mais a fundo na análise pois ela
esconde o estopim de uma provável guerra de civilizações
preconizada por S. P. Huntington em seu discutido livro
O choque de civilizações (1996).
Equivocam-se os que pensam se tratar de mero fundamentalsmo.
Para o Islã por detrás das charges está a cultura moderna do
Ocidente hoje globalizada. É tida como sem fé, imoral,
exploradora, belicosa, arrogante e violadora de tratados da
ordem mundial. Ela se julga universal e por isso digna de
ser imposta a todo mundo: um pretenso universalismo que se
transforma em imperialismo, como se vê explicitamente na
política externa de Bush e em declarações de Berlusconi.
Há que se reconhecer que a maior fonte de instabilidade e de
possivel conflito num mundo pluricivilizacional é exatamente
o Ocidente. Sua arrogância, imbutida também nas igrejas
cristãs, pode nos levar todos a perder.
Para o
Ocidente por detrás das reações às charges está o
radicalismo islâmico fundado no orgulho de sua cultura e no
sentimento de superioridade por manter viva a fé pública em
Deus. Está também o rancor pelo fato de seus territórios
serem militarmente ocupados em razão do petróleo e de serem
considerados anti-modernos, fundamentalistas e nichos do
terrorismo mundial.
Confrontamo-nos aqui com preconceitos mútuos que
ressuscitados no contexto globalizado podem gerar
incontrolável violência.
Mas o
verdadeiro pomo de discórdia reside na fé e no lugar que ela
deve ocupar na vida pessoal e social. As sociedades modernas
ocidentais são filhas da razão ilustrada. Só se legitima
aquela realidade que passa pelo crivo da razão crítica. Por
esse crivo não passou a fé tradicional. Ela não é fator
determinante na sociedade. Foi relegada ao mundo privado.
Vendo de fora, o Ocidente socialmente não tem fé. Vive-se
etsi Deus non daretur ("como se Deus não existisse")
na famosa formulação do teólogo-martir do nazismo D.
Bonhoeffer que anteviu esse obscurecimento social da fé.
Esse ponto
de vista é inaceitável para o Islã. É impensável uma
sociedade sem uma dimensão institucional de fé. É não ver
sentido no universo, sustentado pelo Criador do céu e da
terra, é desconhecer os seres humanos como irmãos e irmãs.
Isso não funda necessariamente um estado teocrático como se
comprova hoje na Indonésia, o maior pais muçulmano do mundo.
O Estado reconhece explicitamente na sua organização a fé em
Deus, sem identificar esse Deus com o do Islã, do
Cristianismo ou de outras religiões. É um estado não
confessional, com forte identidade nacional e fé ecumênica.
A herança irrenunciável de Maomé é esta proclamação pública
de Deus e da irmandade de todos os seres humanos, valores
tidos no Ocidente por pré-modernos.
Fazer
caricaturas do Profeta é pôr à irrisão esta fé que orienta a
vida de milhões. Dai a reação compreensível de muçulmanos do
mundo inteiro. A fé é central no Islã enquanto é irrelevante
no Ocidente. As charges procuram ridicularizar esta
diferença. O desrepeito ao Sagrado põe à amostra a
irrefreável decadência espiritual do Ocidente. |